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Reclames e profanações na boca da Noite

Por Luiz Fernando Pinto

Na boca da Noite, uma série de três narrativas multitemporais proferidas por uma estrutura de concreto de vinte dois andares erguida na década de 1920, no centro do Rio de Janeiro, e que após uma metamorfose cibernética, causada por um fenômeno moderno radioativo composto por substâncias não identificadas presentes no fundo da baía de Guanabara e na urina de pombos selvagens provincianos, em contato com partículas tóxicas, encontradas no sistema de transmissão da Rádio Nacional, transforma-se em uma voz noturna moribunda que na pandemia da Covid-19 invade residências profanando reclames pelo telefone. A pesquisa faz uso das artes performáticas para encenar um çentro contaminado por diversas cartografias, atravessado pela imaginação, memória e cotidiano. Tendo o Edifício A Noite como ponto de conexão e fuga, a criação opera num procedimento de colagem, de paródia e bricolagem de materiais pertencentes a áreas e tempos diversos. Criar para deslocar, se apropriar do outro, deglutir para afastar, para redimensionar. Um diálogo em que a literatura brasileira é constantemente manuseada, combinada, desprendida em um exercício de especulação.

 

A primeira narrativa da série abre algumas das mais de trezentas e cinquenta janelas do edifício A Noite para contar um causo num tempo impreciso que mistura memórias pessoais, a região imaginada de um çentro da cidade, Dorival Caymmi, obras de Machado de Assis, Mário de Andrade e o programa da atriz, pioneira da rádio e televisão, Daisy Lúcidi, que faleceu por causa da Covid-19 aos 90 anos de idade. Ela deu voz durante 45 anos ao programa Alô Daisy da rádio nacional. 

 

#1 Era tu Deise ou o nosso amigo Mário

Criação e texto: Luiz Fernando Pinto @luizfernandoppinto

Videoarte: Priscila Bittencourt @priii_bittencourt


Escute o áudio da performance

Por Luiz Fernando Pinto 

Série: Reclames e profanações na boca dA Noite 

#1 Era tu Deise ou o nosso amigo Mário 

É doce morrer no mar 

Nas ondas verdes do mar 

É doce morrer no mar 

Nas ondas verdes do mar 

Dorival Caymmi

 

Alô! Ôôô Deise? Hello, Deise! Cansei desse negócio de carta, agora é telefone. Tô aqui ó… direto do çentro. Isso…vou direto ao ponto. Escuta. Eu vi. Ninguém me contou, não. Botei a cara na rua e você estava lá. Filmei hein. Tá tudo na nuvem. Tá querendo virar atleta? Só não entendi o horário. Coisa de lacradora mesmo, Deise! Tu queria flash! Não se faz de besta, sei que tá me ouvindo. Como está o tempo aí em Varginha? Quando vier traz umas mangas! Ainda bem que nada passa batido, já fez as contas? São mais de trezentas janelas. Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta olhos que não falham, apesar da miopia, Deise. Dessas frestas eu já vi coisas que até Mário desconfia. Foi exatamente neste horário. As águas platinadas da baía pareciam até uma pintura…lindo! Os peixes, os barquinhos, as eucariontes, fotossintetizantes, clorofiladas, unicelulares e pluricelulares, o lixo, o óleo, as placas tectônicas, as bostas… lógico! Tu acha que teu coco vai pra onde? Tudo refletido pela lua cheia. Coisa linda! Outro patamar… mar se eu fosse poeta de poesia faria um poema. Como não sou, te ligo e narro o que vi-vi. Narro como questão de sobrevivência, Deise. Te reconheci pelo cocoruco, essa peruca, lady, Deise é batata te reconhecer. Você não me viu. É que me fingi de morto. Não sou besta! Pareço defunto mas é tudo fingimento, tudo encenação. Fiz escola, mon amour. Tá pensando o que? Todos esses artistas aí são fruto de moi, ou de mauá. Mas Deise, vai que tu pega um resfriado? Uma gripe? Uma pneumonia? Pelo menos estava nadando sozinha, sem aglomeração, e devidamente mascarada, é bom ressaltar. Mas, escuta aqui. Gostei do maiô, esse rosa choque é a tua cara. Confesso que foi bom te reencontrar. Aqui é tudo tão solitário que só fico com as lembranças. Vez ou outra até elas me faltam. Você está aí? Falei dele mas eu já ia esquecendo de contar o mais importante. O nosso amigo. O que está acontecendo com o Mário? Voltou quatro meses depois, e entrou na minha casa, certa manhã, quase no estado em que eu o vi no passeio público. A diferença é que o olhar era outro. Vinha com sede de guaraná jesus. Me contou que vai fundar o desvairismo, sim… doido de pedra. Não só está louco, mas sabe que está louco. E esse restin de consciência, como uma frouxa lamparina no meio das trevas, complica muito o horror da situação. Perdeu a seriedade. Escuta. Mário não tá sozinho, mesmo que insista em dizer o contrário. Isso é coisa de quem está acompanhado, Deise! Tem dedo do olho grande do Martinelli ou o Marinetti, ervas daninhas, Deise! O pior, ele não se irrita contra o mal, ao contrário, diz que o sintoma é ainda uma prova de desvairismo. Recitou um prefácio longuíssimo e um tanto interessantíssimo. Um cruzo danado, um entroncamento. Deise, deixaremos que tropece? Caia e se fira? Assis acha que é exagero! Mas não foi ele quem ouviu o coitado dizer que seguia um tal de Dom Lirismo, único dom que conheço é o Casmurro, esse Lirismo deve ser um desses deuses que ele foi buscar no Piauí. Antes no Piauí do que ir parar em Itaguaí. Veio com um papo que havia passado um bom tempo procurando a si mesmo e que era um tupi tangendo um alaúde. Ainda teve o disparate de dizer que não se importava por eu não entender essa loucura toda. E por fim, pra completar, depois de tudo olhou nos meus olhos e berrou “está acabado o desvairismo”. Imagino o seu susto, Deise, ouvindo isto. Não tenho tempo para explicar: me ligue, se quiser. Ou convide o Mário para um mergulho. Aproveite o seu exílio no Rio. Saudades aos seus e aceite um abraço eletromagnético. Não! Não é eletromagnético, me enganei, é radioativo, que falou um faquir alemão que me analisou e disse que dou felicidades pelas forças radioativas que possuo. Um cheiro e um queijo, de Minas!


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